01 setembro 2017

Sobre a extinção da arte de narrar, em Benjamim

É como se estivéssemos sendo privados de uma faculdade que nos parecia totalmente segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. 

Uma das causas desse fenômeno é evidente: as ações da experiência estão em baixa. E tudo indica que continuarão caindo em um buraco sem fundo. Basta olharmos um jornal para nos convencermos de que seu nível está mais baixo que nunca, e que da noite para o dia não somente a imagem do mundo exterior mas também a do mundo moral sofreu transformações que antes teríamos julgado como absolutamente impossíveis. 

Benjamim em O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov



02 agosto 2017

Outra vida, por Kundera

"Quem não se perguntou um dia: e se eu tivesse nascido noutro lugar, noutro país, noutro tempo, como teria sido minha vida? Essa pergunta contém em si uma das ilusões humanas mais difundidas, a ilusão que nos faz considerar a situação de nossa vida como um simples cenário, uma circunstância contingente e mutável pela qual passa o "eu" independente e constante. Ah, é tão belo imaginar outras vidas, uma dezena de outras vidas possíveis! Mas chega de sonhos! Estamos todos desesperadamente atrelados à data e ao lugar em que aconteceu nosso nascimento. O "eu" é inconcebível fora da situação concreta e única de nossa vida, ele só é compreensível dentro e por causa dessa situação". 

Milan Kundera em A Cortina

31 julho 2017

Breves notas a respeito do conceito de "atenção"

Acredito que uma grande parte do meu problema com os estudos é a falta de atenção. Não no sentido corrente da palavra, mas na concepção dos moldes utilizados na Hatha Yoga. A principal divergência entre este tipo de atenção e o que acreditamos ordinariamente conhecer é que, para a Hatha Yoga, o verdadeiro modo de estar atento é derivado de uma "mente desperta", mas relaxada, não tensa nem esforçada. 

No dia a dia pretendemos nos concentrar nas coisas por meio de uma tensão da mente sobre o objeto alvo. Para essa escola de Yoga, uma atitude derivada da atenção plena surge precisamente do contrário, de uma mente "frouxa" que se centraliza no alvo. Daí surge a verdadeira concentração. Aquele estágio em que a mente entra em uma espécie de flow, e as horas passam sem se ver. 

Penso que, talvez, os grandes mestres do passado não tivessem outra capacidade tão extraordinária além de um poder de atenção inabalável diante das tarefas que pretendiam realizar. Claro que é possível a existência de algumas aberrações (penso em Mozart), mas o poder de se dedicar por horas a algo, sem desviar a atenção, e manter o trabalho constante por anos, não pode trazer outro resultado que não o sucesso. 

Não é a toa que tal nível de atenção (no sentido de uma concentração relaxada) é a premissa para diversas técnicas magisticas. Penso precisamente nos exercícios de P. Carroll e da IOT. Fica claro, ao se estudar tal programa, qual o primeiro estágio a se perseguir; o de uma atenção obstinada. Estágio que seja, talvez, o mais complexo de se alcançar, já que como diz o próprio Carroll, tal resultado só pode ser atingido pelos homens mais obcecados, de vontade quase doentia.