03 agosto 2020

Imediatismo da morte em Broch.

Hermann Broch, escritor austríaco, denunciou que a ascensão do positivismo, desde os momentos de seu engatinhamento no Renascimento, fez com que o homem fosse obrigado a encarar a morte de uma nova forma, com o mesmo "senso heroico" que encara todas as coisas da vida, com o mesmo senso de realidade palpável. Assim:

"[...] ainda que o imediatismo da morte leve a encará-la olho no olho, ainda que o imediatismo de sua ameaça limite o medo a temor, um temor que se pode rechaçar do mesmo jeito que se rechaça o perigo que o invocou, a incerteza e a escuridão eterna permanecem estendidas em torno da alma humana, a morte permanece oculta no noturno e no incerto, e nessa escuridão mora o medo: o medo da incerteza da escuridão, o medo da solidão que acompanha a alma do ser humano, a começar pelo instante em que abre os olhos para a consciência até aquele em que os fecha para a eternidade, contra esse medo é possível a defesa, e ele também não pode ser amenizado - a alma do ser humano assume a tarefa de se garantir, de se proteger contra o medo".  


21 julho 2020

Café com Apolo

A situação de pandemia e de distanciamento social me fez adotar uma série de pequenos rituais diários. Alguns foram tomados por necessidades logísticas, outros por saúde física e mental. 

Dos últimos, um que tenho apreciado muito é o ato de pegar sol. Algo que nunca fiz com regularidade por conta da rotina de trabalho. 

Atualmente, como estou sempre em casa, por volta da 9 eu passo um café e coloco em minha pequena garrafa térmica. Pego o livro que estou a ler no momento e sento no corredor lateral externo da casa, em um pequeno quadrado em que o sol está disponível entre 09:00 e 11:00. Utilizo um tapete cinza de yoga e sento nesse local por cerca de meia hora, sempre antes das 10 da manhã. Tomo uma ou duas xícaras de café enquanto leio o livro. 

É um pequeno prazer, mas tem um quê de realidade, de ato "sincero" em meio a um tempo em que quase tudo, para mim, parece plastificado, opaco, de mentira. Um simples ritual em nome da vida, sob as bençãos de Apolo. 

09 julho 2020

O gosto dos outros

Muitas vezes acho difícil dizer sobre o que trata um filme. É mais fácil falar sobre o que ele me fez pensar. No caso de O gosto dos outros (França, 2000), ficou em minha mente uma espécie de "relação de poder" estabelecida entre o patrão e os seus subalternos, no que diz respeito aos sentimentos de cada um. O industrialista rico passa por uma desilusão amorosa e durante o processo de amargar sua dor os seus dois empregados mais próximos, o segurança e o motorista, são obrigados - pelo emprego - a estar junto dele, mesmo tendo os seus próprios problemas para digerir. O motorista, por exemplo, acaba de passar por um rompimento com a namorada. Em certo momento da trama tenta compartilhar isso com o patrão, vendo que ele também não está bem. O patrão não tem interesse em ouvir. E a falta de interesse não parece arrogância ou soberba motivada pela posição social. É apenas um homem magoado que quer ficar em silêncio. Ele não parece uma pessoa que poderia ser considerada "ruim", não despreza os empregados, mas o que marca é a posição daquele que pode escolher ficar em silêncio e que pode escolher ser ouvido. Se, em certo momento, o patrão decidisse compartilhar seus sentimentos com algum dos empregados - com o mesmo motorista, talvez - é muito improvável que alguém se negasse a ouvir, não por interesse real em suas angústias, mas pela imposição da posição de empregado. 

Enfim, independente da índole das pessoas envolvidas, minha sensação é a de que as sutis camadas sobrepostas pela posição social delimitam os limites de expressão de todos os sujeitos. O compartilhar de experiências e sensações são desenhados balizados pela posição social, e provavelmente seriam muito diferentes se as posições fossem invertidas, ou se existissem de maneira diferente.  
sentimentos

11 abril 2020

A capa de Psychic Death (Acherontas)

O lançamento do novo álbum dos gregos do Acherontas foi adiado para junho, por motivos óbvios relacionados à epidemia viral que assola o planeta. Assim, chega para nós um single, intitulado Psychic Death, nome da faixa que será também título do álbum (Psychic Death - The Shattering of Perceptions é o título completo).

De acordo com o selo Agonia Records, que lançará o álbum, a banda é uma das entidades mais representativas na Nova Onda do Black Metal Grego, com carregadas influências da cena helênica de metal, rock 70's e de filosofias orientais. 

Amigos mais próximos ao black metal tem celebrado Acherontas já há algum tempo, o que eu nunca havia feito. Ando um pouco desligado das "cenas" black metal, mas foi o último parágrafo da descrição anterior que me fez parar e olhar para este lançamento com um pouco mais de cuidado. 

A começar pela capa, interessei-me pelo fato de haver uma escrita em devanágari, no logotipo da banda.


O devanágari é um alfabeto da família brâmica, usada desde o século XII, em muitas línguas da Índia, como o próprio hindi. É em devanágari também que são lidos e estudados os textos sagrados Védicos (Vedas), mas não em hindi, e sim em sânscrito.

Não sou nada além de um curioso e entusiasta do sânscrito, por isso tentei ler o que está escrito na capa. Por sua forma, não sei afirmar em que língua a frase está escrita. No meu curto entendimento, em sânscrito, quando há uma consoante sem vogal, ela é "acoplada" à consoante posterior, formando um novo símbolo. Assim, क + त formariam क्त, da mesma forma que प + र formam प्र. Na capa do single não há a junção das consoantes, mas o uso do virama (o traço abaixo da consoante), para indicar que não há uma vogal ali (no devanágari, toda consoante é sempre acompanhada do som "a", e se ele não estiver presente, é necessário indicar essa ausência).

Logo, talvez a frase não seja em sânscrito, mas alguma outra língua que obedece a regras diferentes de formação. Enfim. Transliterando para nosso alfabeto, encontrei as palavras Rakta Pravāha . Ao pé da letra temos a palavra "Sangue" seguida de "circulação" ou "corrente". Por uma tradução imediata teríamos "fluxo sanguíneo". É sugestivo que encontramos aqui uma frase relacionada a algum significado simbólico, não passível de ser resolvida pela literalidade.

Assim como não tenho certeza da língua usada pelos gregos na capa do álbum, também não sei a qual corrente de pensamento os mesmos se referem ao utilizar a frase. O que pude fazer foram algumas correlações para sanar minha própria curiosidade. Obviamente posso estar errado, mas qual o problema? 

Para além de "sangue", a palavra Rakta pode ter uma grande variedade de significados. Tais significados vão dos mais concretos, quando relacionada ao ayurveda, por exemplo, aos mais metafísicos.

Um famoso purana das tradições hindus, o Vayu Purana, discute uma gama de assuntos, como teorias cosmológicas, genealogia dos deuses e reis, mitologia, astronomia, etc. Neste texto, Rakta é o nome de um dos Kalpas, longos períodos de tempo nas cosmologias hindu e budista. Um Kalpa é equivalente a 4,32 bilhões de anos e Rakta seria o 30º Kalpa. Assim, lemos nos versos 20-23 do capítulo II do Vayu Purana:

20. O trigésimo Kalpa é famoso pelo nome Rakta onde o Ser de grande esplendor assumiu cor vermelha.
21. De Brahma, o deus supremo que, estando desejoso de um filho, estava empenhado em meditação, nasceu um menino de grande esplendor. Seu corpo era vermelho. Ele usava guirlandas e trajes vermelhos. Ele era de olhos vermelhos e valoroso.
22. Ao ver aquele menino de trajes vermelhos, ele entrou em meditação profunda e percebeu que ele era o grande senhor do universo.
23. Depois de se curvar a ele, Brahma ficou extremamente autocontrolado e meditou na forma Vāmadeva¹ de Brahman.

Já "Pravāha " não aparece no Vayu Purana. No texto podemos encontrar "pravaha" (com o "a" curto) como o nome de um dos ventos "carregadores de nuvens" (cap. 51, v. 36), e também como uma das camadas da atmosfera, aquela que "se estende das nuvens até o Sol" (cap. 16, v. 115). 

De acordo com algumas definições, é possível escrever Pravaha, sem o "a" longo (ā), com o mesmo significado de Pravāha, então obtemos um nome para "vento" novamente. Prahava pode ser o nome de um sopro vital que sempre se move para cima. Vento é também Vayú, que é, além disso, uma divindade. A forma de Vayú relacionada a pravaha é aquela que produz raios no céu.

E após toda essa divagação em torno das duas palavras chego, infelizmente, ao resultado de não ter encontrado nenhuma relação entre as duas. Nada além de "fluxo sanguíneo" chegou ao meu conhecimento. Continuarei com essa inquietação por um bom tempo. 

Notas.

¹. Forma de Shiva que aparece durante o Rakta Kalpa.

06 abril 2020

...tudo é esbanjo neste Templo do Mundo

"A chuva cai sobre os desertos assim como sobre os vales férteis; e o sol resplandece sobre as águas azuis assim como sobre os campos verdejantes; e orvalho não está atento para onde dorme, seja sobre o monte de estrume, ou entre as pétalas da rosa selvagem; pois tudo é esbanjo neste Templo do Mundo, onde no trono de riqueza inesgotável senta o Rei da Vida, arrancando as joias de sua garganta dourada, e atirando-as ao vento para serem levadas para os quatro cantos da Terra. Não existe economia aqui, nenhum acúmulo para a manhã; e mesmo assim não existe nenhum desperdício, nenhuma luxúria, pois todos que entram nesta Tesouraria da Vida se tornam um com as joias do tesouro."

De O Templo do Rei Salomão; O perdulário. 

10 janeiro 2020

Nephesh

NEPHESH

A divisão de elementos que compõem a alma são comuns à tradição cabalística e ao Zohar, e Nephesh (ou Nefesh) é uma destas partes. Palavra geralmente traduzida como "alma animal", é comum a todos os seres humanos, integrado ao indivíduo desde o nascimento. Na tradição cabalística é considerado a parte inferior da alma, a parcela irracional, fonte das naturezas física e psicológica do homem. É um princípio, em si, ainda espiritual. É o veículo através do qual a mente (Ruach) entra em contato com o pó da matéria.

Nefesh é indisciplinado, e como seu princípio básico é o trânsito com a matéria, tende a se distrair e se prender a grupos de fenômenos, enquanto despreza outros. Para que possa executar suas tarefas de forma devida, é necessário aplicar a ele severa vigilância e disciplina.

Nefesh é astuto e tende a aplicar toda sorte de truques para organizar seu trânsito com a matéria, de forma conveniente à sua inércia (relação com Tamas), deixando de olhar para o alto, para as 3 Sephiroth superiores, já que não as compreende (no geral, nem suspeita da existência delas).

Nefesh e Kama-Rupa

Em "A voz do silêncio", v. 51, encontramos a seguinte instrução: "antes de penetrar na Senda, tens de destruir o teu corpo lunar". Nas anotações de Crowley, em Liber LXXI, lemos que o corpo lunar é Nefesh. Tal corpo é relacionado a Kama-Rupa, o "corpo dos desejos", nos comentários de Blavatsky. O Kama-Rupa é a forma astral, uma forma subjetiva criada por nossos desejos e pensamentos relacionados ao mundo físico. Essa forma sobrevive após a morte do corpo. Ao ficar na terra, tal corpo se separa dos princípios superiores.

A duração desse corpo na terra é proporcional à força da materialidade dos pensamentos e desejos do morto. Como é privado de sua mente superior, vaga à mercê de seus desejos insensatos, enquanto desvanece gradualmente. Todavia, Kama-Rupa pode ser mantido na esfera terrestre indefinidamente, via seus próprios desejos incontroláveis, pelos amigos sobreviventes ou pelas práticas nigromantes, fazendo com que o "fantasma" permaneça por muito na terra. 
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Fontes: 
A voz do silêncio 
Liber LXXI
Kabbalah Hermética
Pequenos ensaios em direção à Verdade

20 novembro 2019

Eu invoco Tahuti, o Senhor da Sabedoria e da Elocução!

Uma breve hierarquia dos deuses expostos em Liber Israfel, sub figura LXIV. Todos os deuses são egípcios, de diferentes regiões e períodos. As divindades são listadas por ordem de aparição no texto. 




TAHUTI - Outro nome para Thoth. Deus egípcio da Sabedoria, da Magia, inventor da linguagem. Divindade lunar, por refletir o pensamento de Ré. É listado como Magister Templi em Liber CCCXXXIII (O livro das mentiras). Thoth é considerado O Grande Iniciador. É representado com uma cabeça de Íbis (em ocasiões mais raras, com uma cabeça de babuíno). Segura um cetro was ("varinha de duplo poder) na mão direita; na esquerda, um ankh (a Rosa Cruz de Luz e Vida).




RÁ - A transliteração correta para o português é Ré, sendo Rá admissível apenas como elemento inicial ou medial (Como em Ramsés, "nascido de Ré"), mas nunca final ou isolado. 

Ré tinha supremacia no panteão egípcio. Como Deus Sol, era fundamental para uma cultura primordialmente agrícola, como a dos egípcios. Ao amanhecer era visto como uma criança recém-nascida ou uma vaca celeste. Recebia nessa forma o nome de Kepri (Kephra). Ao por do sol era Atum (Tmu), um velho descendo para a terra dos mortos.  

É apresentado como um homem com cabeça de falcão. Em cima de sua cabeça leva o disco solar envolto por Uraeus, a serpente que destrói os inimigos do deus, cuspindo fogo. Carrega também um ankh e um cetro was.


PTA - (Ou Tanen, Ta-Tene, Tathenen, Peteh) é um deus criador, patrono e divindade de Memphis. É também patrono dos trabalhos em pedra. Casado com Sekhmet ou, em mitos mais raros, com Bastet. Pta é pai de Nefertem, Mihos e Imhotep. Alguns mitos incluem Ré entre sua prole.

Sua representação artística é de um homem mumificado, segurando um cetro com um ankh, um was e um djed. Frequentemente usa também um "elmo" de caveira.

Na mitologia de Memphis, Prá é o único criador de todo o mundo e de tudo em seu interior. Ptá não foi criado. Ele é.




NU - Palavra para "espaço" em Thelema, como no verso "Eu ando sobre o firmamento de Nu", em Liber LXIV. Quando acrescentado do sufixo -IT, a noção de espaço é personificada em uma divindade, ou forma-deus, Nuit, a Deusa egípcia do espaço, do céu, do cosmos, da astronomia. Era vista como uma mulher nua, cujo corpo, coberto de estrelas, se arqueava sobre a terra. Carrega um ankh e um pote de água sobre a cabeça. 

KEPHRA - Deus associado ao escaravelho (Kepher). Personifica o renascimento, a renovação. Os egípcios acreditavam que os escaravelhos eram formados de matéria morta.

Kepher, o escaravelho, significa "vir a existir". Kephra era uma divindade solar que empurrava o sol, assim como o escaravelho empurra os dejetos.

Quando o culto a Ré - antes um culto rival - ganhou relevância no egito, Kephra passou a simbolizar uma das facetas de Ré; o sol nascente, que "vem a existir".



TMU - (Nome mais comum: Atum. Também Tem, Temu). Assim como Kephra, foi um deus incorporado ao culto de Rá. Antes era a divindade mais importante em Iunu (Heliopolis), onde desempenhava o papel de deus criador.

Atum gerou uma explosão primordial - de forma planejada - que deu origem aos corpos celestes do universo. Ele cria o sol, depois vem a tornar-se a si mesmo, quando incorpora-se a Ré, transformando-se em Atum-Rá.

Atum não tinha parceiro, por isso seu primeiro ato criador é sem relação sexual. No começo não havia nada, apenas a vastidão de terra, então Atum teria cuspido, de onde nasceram os gêmeos Shu (pai de Nu) e Téfnis.

Como aspecto solar, Atum representava o sol poente, que mergulha no submundo todas as noites.

xxx

O Deus que comanda está em minha boca! 
O Deus da Sabedoria está em meu Coração! 
Minha língua é o Santuário da Verdade! 
E um Deus está sentado em meus lábios. 

Liber Israfel. 

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Fontes: 
thelemapedia.org
ocultura.org.br
hermetic.com
ancientegyptonline.co.uk

13 novembro 2019

XXX


I
O que se chama de justiça não é um fato da natureza. A natureza não é moral ou teologicamente justa. Ela apenas é. Por esse motivo não falemos mais de justiça, mas de equilíbrio.
                Tudo no universo se equilibra, ou caminha para esse objetivo. Do Alfa ao Ômega sobre os pratos da mulher que, satisfeita, tudo observa. Aquela que é a dança, em eterno rodopio. A cadeia que faz a mais mísera ação influenciar todo o universo. No Oriente seu nome é Karma.
                Assim, a tarefa do homem deve ser em direção à firmeza do equilíbrio. Forma eficaz de treinar e construir a vontade. O equilíbrio fomenta as estratégias de combate às crenças enraizadas. Identificar ervas daninhas no pensamento e não sucumbir a elas.
                O equilíbrio cria os alicerces para o trabalho, e as dificuldades do trabalho criam a força para vencer. O triunfo só é dado àquele que é ameaçado. Não há forma de purificação terrena além dessa. Buda teria alcançado a consecução sem Mara?
                Mas o vitorioso não deveria carregar consigo a vaidade. Aquele que sabe muito reconhece a própria ignorância. Um homem tolo é mais digno de esperança do que um sábio presunçoso. Há uso para quase todos os sentimentos. Quase todos podem ladrilhar o caminho de alguma forma. Menos o orgulho. O orgulho é sempre inútil.
                Na vaidade o homem condena o homem. E como pode o primeiro presumir que agiria de forma diferente, sob as mesmas condições impostas ao último? E se, mesmo assim, tendo a certeza de que resistiria às tentações, como se pode vilipendiar alguém por ser mais fraco? 
                Então do equilíbrio e da força vem a alma firme. O princípio da coragem, que afasta o fracasso; medo é o fracasso, e semeia o fracasso.
                Destarte, aquele que sobe, deve prostrar-se diante de seu eu superior, mas não tem o direito de temer coisa alguma sobre a terra. E mesmo na coragem, há de buscar o equilíbrio. Não temer não significa desacatar. Os grandes, amigos ou inimigos, não são merecedores de desprezo ou ofensa. Combater o que é necessário, mas não injuriar, pois a injuria, a zombaria, o desprezo e as ofensas pavimentam a estrada do engano.

II
                O homem, como parte da humanidade, não afeta apenas a si mesmo através de suas ações, mas ao todo. “Há espaço entre você e o sol?”, pergunta o professor. Não há lugar vazio, assim como não há ação que não reverbere por todo lado, para sempre.
                O corpo material é o veículo do trabalho, e esse responde ao equilíbrio. Que a razão e as emoções sejam disciplinadas, e daí ocorra a constância da mente, o que livra das perturbações. Olhai para o alto, para além da desordem material. Aquele que pensa no divino é, do divino, objeto de pensamento.
                O trabalho é executado por ter valor em si mesmo. Ansiar por resultado é ansiar. E ansiar é sofrer. Tudo que tiver de realizar, deve realizar da melhor maneira possível. A atividade é força para o corpo e a mente.
                Assim também é com o que é feito pelos outros. O que chamamos de “bem”, deve ser feito pela simples realização do trabalho. Já ensinou o Sempre Senhor que o desejo por recompensa é se aferrar à escravidão. A ação, pelo puro amor, é o caminho para a liberdade.
                E que fique claro, além do mais, que amor é o contrário de negligência. Amar significa, também, disciplinar, como nos ensinam as lições da contagem dos 49 dias. Os dois pilares devem estar em equilíbrio. Para sempre, Amém.

III
                Lemos um cartão postal que nos lembra de nossas limitações nesta existência. Que mesmo ser um Deus da Terra significa ser pó perante o cosmos. Qual motivo teria então para se orgulhar, boneco de carne e sangue?
                Abole o orgulho, mas eleva o respeito próprio. Pecar contra si próprio é, talvez, o único pecado. E desses o pior é rejeitar o conhecimento, por fechar os olhos ao que não confirma sua “verdade”. 
Já apontou um homem Santo que, em nosso cérebro, dois habitam; um pensa, o outro trabalha incessantemente para encontrar em tudo validação para o que pensamos. Seu foco é reafirmar nossos preconceitos. Seria preciso aconselhar que se desconfie dele? Nas palavras do mesmo Santo, crer é matar a inteligência.
Aquele que assim caminha e vigia, gradualmente, desbravará as cavernas e submundos, voará nas alturas a plenos pulmões, dançará com o fogo da vontade e banhar-se-á nas águas mais puras. E que sempre tudo isso seja com o olhar voltado para o Altíssimo, pois se a busca é por satisfação dos caprichos terrenos, atrairá apenas o Fraco, e o Fraco lhe tornará Fraco, e reinara sobre ele.

Inspirado nas palavras de Crowley, Vivekananda, Buda, Krishna e RAW. 

Drop here!

20 junho 2019

...can't stop growing old...






"Beware this troubled world
Watch out for earthquakes
Goodbye to open sores
To broken center floor"

20 maio 2019

O Eu e o jogador




Naquele momento, com sede, olhei para minhas mãos segurando a garrafa com água, e imaginei-me como um personagem de vídeo games, naqueles jogos em primeira pessoa. A sensação foi como se EU - um verdadeiro Eu - controlasse esse personagem virtual, e fosse ele, apenas ele, o dono do Ego, e de tudo que acompanha o Ego. O Ego não pertencia ao Eu. 

O Eu estaria fora do jogo. Assim como o jogador que segura o controle, ele decide as ações e os caminhos do personagem, mas não é essencialmente influenciado por elas. 

O personagem desenvolve habilidades e enfrenta os perigos e obstáculos necessários para alcançar o sucesso em um jogo específico. Eventualmente o personagem vem a morrer, o que não afeta em nada o jogador, que inicia novamente a jornada com um outro protagonista. Talvez ainda precise buscar as mesmas habilidades do anterior. Outras vezes surgem necessidades diversas. O jogo também pode ser completamente diferente, mas o jogador permanece ali, não se altera. Prossegue o Eu, na diversidade de personagens e jogos.  

05 março 2018

Notas sobre O lobo da estepe, de Hesse, e a negação da personalidade na Magia do Caos




“... e agora via claramente, como um quadro posto diante de mim, o processo de minha personalidade até então. As poucas habilidades e matérias em que eu casualmente era forte haviam ocupado toda a minha atenção, e eu pintara de mim a imagem de uma pessoa que não passava de um estudioso e refinado especialista em poesia, música e filosofia; e como tal tinha vivido, deixando o resto de mim mesmo ser um caos de potencialidades, instintos e impulsos que me pareciam um transtorno e por isso os encobria com o nome de Lobo da Estepe”.
Herman Hesse.


Essa passagem do Lobo da Estepe me fez pensar na ideia muitas vezes discutida a respeito da personalidade nos meios da Magia do Caos. A personalidade vista como uma forma de prisão, uma grade em que nos aprisionamos por conta própria, e que com o passar dos anos vai se solidificando, principalmente ao nos preocuparmos em manter uma “imagem” para os outros, artificial, criada por nós mesmos.  

Enxergamo-nos dentro de um paradigma delimitado, e qualquer desvio daquilo que temos como preconcebido a respeito de nossa personalidade causa o temor de praticarmos comportamentos que poderão ser percebidos como caricatos, ou no mínimo inferiores à imagem que presumimos fazerem de nós quando, possivelmente, essa preocupação simboliza o suprassumo do ridículo.

Neste sentido recordo algumas praticas que intentam a libertação do indivíduo da própria personalidade (ou pelo menos o afrouxamento dessas amarras), e que visam abrir espaço em nossa “percepção da realidade” para diferentes possibilidades comportamentais, para a aceitação de novas concepções de uma existência plural e multifacetada, que provavelmente se adaptaria melhor à nossa existência como seres pensantes.

Então me reporto mais uma vez a Hesse, dessa vez não pela voz do próprio Lobo da Estepe, mas do tratado que, no livro, leva esse nome:

“E se em algumas almas humanas, singularmente dotadas e de percepção sensível, se levanta a suspeita de sua composição múltipla, e, como ocorre aos gênios, rompem a ilusão da unidade personalística e percebem que o ser se compõe de uma pluralidade de seres como um feixe de eus, e chegam a exprimir essa ideia, então imediatamente a maioria as prende, chama a ciência em seu auxilio, diagnostica esquizofrenia e protege a Humanidade para que não ouça um grito de verdade dos lábios desses infelizes”.

Ao som de: Saturnus - I long 

01 setembro 2017

Sobre a extinção da arte de narrar, em Benjamim

É como se estivéssemos sendo privados de uma faculdade que nos parecia totalmente segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. 

Uma das causas desse fenômeno é evidente: as ações da experiência estão em baixa. E tudo indica que continuarão caindo em um buraco sem fundo. Basta olharmos um jornal para nos convencermos de que seu nível está mais baixo que nunca, e que da noite para o dia não somente a imagem do mundo exterior mas também a do mundo moral sofreu transformações que antes teríamos julgado como absolutamente impossíveis. 

Benjamim em O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov



02 agosto 2017

Outra vida, por Kundera

"Quem não se perguntou um dia: e se eu tivesse nascido noutro lugar, noutro país, noutro tempo, como teria sido minha vida? Essa pergunta contém em si uma das ilusões humanas mais difundidas, a ilusão que nos faz considerar a situação de nossa vida como um simples cenário, uma circunstância contingente e mutável pela qual passa o "eu" independente e constante. Ah, é tão belo imaginar outras vidas, uma dezena de outras vidas possíveis! Mas chega de sonhos! Estamos todos desesperadamente atrelados à data e ao lugar em que aconteceu nosso nascimento. O "eu" é inconcebível fora da situação concreta e única de nossa vida, ele só é compreensível dentro e por causa dessa situação". 

Milan Kundera em A Cortina

31 julho 2017

Breves notas a respeito do conceito de "atenção"

Acredito que uma grande parte do meu problema com os estudos é a falta de atenção. Não no sentido corrente da palavra, mas na concepção dos moldes utilizados na Hatha Yoga. A principal divergência entre este tipo de atenção e o que acreditamos ordinariamente conhecer é que, para a Hatha Yoga, o verdadeiro modo de estar atento é derivado de uma "mente desperta", mas relaxada, não tensa nem esforçada. 

No dia a dia pretendemos nos concentrar nas coisas por meio de uma tensão da mente sobre o objeto alvo. Para essa escola de Yoga, uma atitude derivada da atenção plena surge precisamente do contrário, de uma mente "frouxa" que se centraliza no alvo. Daí surge a verdadeira concentração. Aquele estágio em que a mente entra em uma espécie de flow, e as horas passam sem se ver. 

Penso que, talvez, os grandes mestres do passado não tivessem outra capacidade tão extraordinária além de um poder de atenção inabalável diante das tarefas que pretendiam realizar. Claro que é possível a existência de algumas aberrações (penso em Mozart), mas o poder de se dedicar por horas a algo, sem desviar a atenção, e manter o trabalho constante por anos, não pode trazer outro resultado que não o sucesso. 

Não é a toa que tal nível de atenção (no sentido de uma concentração relaxada) é a premissa para diversas técnicas magisticas. Penso precisamente nos exercícios de P. Carroll e da IOT. Fica claro, ao se estudar tal programa, qual o primeiro estágio a se perseguir; o de uma atenção obstinada. Estágio que seja, talvez, o mais complexo de se alcançar, já que como diz o próprio Carroll, tal resultado só pode ser atingido pelos homens mais obcecados, de vontade quase doentia.   

25 junho 2017

Geração de ferro

Eu sempre ouvi as pessoas falarem que aqueles que se dedicam ao desenvolvimento do corpo são "estúpidos", "burros", etc. Como todos os "marombeiros" não passariam de fracassados "bombados" que perdem seu tempo com academia, seu dinheiro com esteroides, e que "deveriam estar estudando".

Hoje, depois de alguns anos em que eu me dedico ao fisiculturismo (por gosto, nada profissional), percebo um cenário completamente diferente. Por certo que existem alguns indivíduos que levam o quesito "corpo bonito" como um objetivo rápido a ser alcançado, e se lançam na conquista deste desejo das formas mais precipitadas possíveis. Esses sim são estúpidos, bombados burros, que utilizam qualquer substância, considerando-as milagrosas, esquecendo de diversos outros pontos cruciais do desenvolvimento muscular.

Por outro lado estão os fisiculturistas profissionais. Hoje em dia tenho certeza absoluta de que as pessoas que formulam essas criticas generalizantes a respeito dos praticantes de academia nunca se deram ao trabalho de pesquisar alguma coisa sobre a vida de alguém que vive disso. Como eu estava conversando com um amigo há um tempo, esses sujeitos simplesmente não tem o direito de ser burros. A profissão deles não permite. A pressão a que eles são submetidos, a infinidade de detalhes que devem dominar para ter sucesso nessa carreira, tudo milimetricamente calculado, não possibilita que haja pessoas estúpidas neste esporte. É isso que separa os "bombados burros" de academia daqueles que levam o esporte a sério.

Acreditar que crescer é simplesmente aplicar uma substância qualquer no seu corpo, sem nenhum acompanhamento, depois treinar e comer porcamente, e ainda esperar algum resultado é o que se pode chamar de estupidez. Exatamente como aqueles que nunca treinaram e dizem "com esteroides até eu". Lembro de uma entrevista com um candidato a Mr. Olympia em que ele fala que ouve isso constantemente, e a resposta é "não, nem com esteroides você faria tudo o que eu faço". Pode parecer presunçoso, mas é a resposta a alguém que quer reduzir uma vida inteira de esforços e dedicação a algumas picadas de agulha. Sem fazer tudo o que ele faz, pesar cada refeição e contar seus micro e macronutrientes, sem comer todos os dias as mesmíssimas coisas, sem contar todas as horas de sono, sem se sacrificar nos aeróbicos em jejum, você não consegue só pelo esteroide. 

Kai Greene com uma de suas
pinturas ao fundo
Para confirmar ainda mais minhas convicções, assisti a pouco o excelente documentário Iron Generation que fala da rotina de sete candidatos a Mr. Olympia, o maior concurso de bodybuilding da história (aquele que fez a fama do Arnold). No filme se vê o que são homens focados em conquistar algo, e o que me chama mais atenção é como tudo está muito além do corpo, dos músculos. O fato é que tudo o que esses homens conseguem é pela mente, pelo poder mental que eles constroem para seguir a vida que tem. Uma capacidade de se manter focado e resistir às adversidades, uma capacidade de resiliência que os asnos do "com bomba até eu" não tem nem para evitar uma baladinha por mês pra não quebrar a dieta. 

A opinião geral sempre foi a do "bombado burro", e como sempre, tudo o que é opinião geral é desastrosamente equivocada.     

03 maio 2017

Das práticas #1


Se eu tentasse definir o elemento principal do comportamento do Psiconauta, o resumiria em simplicidade. Não apenas ao que concerne à teoria e à prática, mas simplicidade em termos de visão espiritual. Sem grandes ilusões de iluminação ou grandeza de ego; reduzir as práticas ao menor denominador comum, que seja funcional em nível de experimentação, parece ser o fundamental.

Dentro deste viés, tenho realizado pequenas práticas para o estímulo (ou abertura) da região do "terceiro olho", se nos permitimos usar um nome mais místico. Esta região, na verdade, cobre as 10ª e 11ª áreas mapeadas no cérebro, de acordo com Broadmann.

Estas são regiões muito importantes do cérebro humano, relacionadas às capacidades de emitir juízos, força de vontade, sociabilidade, decisões éticas, morais e racionalização.

Não é muito difícil perceber o quão fundamental é desenvolver estas habilidades. Mas, tratando em termos mais "magísticos", a obsessão em torno do "terceiro olho", região em que estaria localizado o 6º Chakra, chamado de Ajna, dá-se pelo que se acreditaria ser a capacidade de desenvolver uma visão espiritual, ou seja, a habilidade de enxergar além do mundo material, por alguns chamada de clarividência.

Voltando à concepção Psiconauta, simplificando as coisas e tentando manter uma postura menos fantasiosa, o terceiro olho aumenta nossa capacidade de visualização, que é quando intentamos projetar imagens mentais sobre a realidade material. Assim, podemos enxergar um círculo em uma parede branca, por exemplo, a partir de nossa vontade. Esta habilidade é muito necessária para algumas práticas mais avançadas, que exigem a concentração e forte visualização por parte do experimentador.



Em termos práticos, durante o exercício a sensação é muito interessante, como se o sangue irrigasse fortemente para a região da testa e fosse possível sentir a veias pulsando ali. Algum efeito, ao menos em um sentido biológico, pode ser comprovado. Os resultados, quanto à capacidade de visualização, virão com o tempo.

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Uma versão de "terceiro olho", do personagem Hiei, no anime Yu Yu Hakusho. Na animação, o personagem se submete a uma cruel "cirurgia espiritual" para ter o olho aberto. 
  

01 junho 2016

Mar

Sempre senti algo curioso ao contemplar o mar. Durante as poucas vezes que tive essa oportunidade, no decorrer dos anos, pude lapidar esta sensação, tentar entendê-la, saber o que realmente eu sentia. Sabia não se tratar apenas do sentimento de encontrar algo belo, mas alguma coisa mais forte, que me causa uma pequenez estranha e arrebatadora. 

Nos últimos tempos, no contemplar desta monolítica massa de aparência azulada, tenho pensado na história, em como esse mesmo mar que eu vejo foi visto por todos os homens que antes de mim estiveram no mesmo lugar, nas mais longínquas eras. Assim me sinto parte de um todo, de um contínuo em que, nem aqueles que estiveram aqui antes de mim, nem eu, nem os próximos homens farão a menor diferença para este oceano arrebatador. Pensamentos apenas arranhando a superfície do que realmente eu gostaria de dizer sobre minhas sensações. 

Hoje encontrei o que sempre quis expressar. Graças a Schopenhauer entendi que tudo o que sempre senti foi exatamente o que ele chama de Sublime; esse arrebatamento do sujeito perante uma força muito maior que ele, que não se curva à sua Vontade, que é indiferente à sua individualidade, e que só nos deixa, como alternativa, o tremor horrorizado pela consciência de nosso nada, ou a apreciação pura, desconexa dos nosso desejos, reconhecendo no objeto admirado algo muito superior a nós, O Sublime. 

   

11 abril 2016

Viracocha

"Mas o aspecto mais extraordinário, e profundamente tocante, de Viracocha, essa nobremente concebida versão peruana do Deus Universal, reside no detalhe que lhe pertence de modo peculiar, suas lágrimas. As águas vivas são as lágrimas de deus. Nesse ponto, a percepção desalentadora do mundo que teve o monge - "Toda a vida é triste" - é combinada com a afirmação criadora do mundo, feita pelo pai: "Que a vida se faça!". Tendo plena consciência da angústia de vida das criaturas que se acham em suas mãos, com perfeito conhecimento das dolorosas aflições incontroláveis das dores, dos fogos que dividem o cérebro do universo delusório, autodevastador, luxurioso e raivoso de sua criação, essa divindade concorda com a tarefa de fornecer vida à vida. Retirar as águas seminais equivaleria a aniquilar o mundo que conhecemos; no entanto, dar-lhes vazão seria criá-lo. Pois a essência do tempo é o fluxo, a dissolução do momentaneamente existente; e a essência da vida é o tempo. Em sua misericórdia, em seu amor pelas formas temporais, esse demiúrgico homem dos homens traz consolo ao mar de sofrimentos; mas, tendo plena consciência do que faz, as águas seminais da vida que ele dá são as lágrimas que traz nos olhos."

Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces


03 abril 2014

Caminhadas e caminhantes


Apesar de ser um entusiasta das caminhadas em detrimento do deslocamento de carro, andar pelas calçadas de uma cidade pequena carrega consigo um aborrecimento não partilhado com quem passeia no confortável isolamento de um veículo: o encontro com pessoas conhecidas, ou pior, semi-conhecidas.

Não sei como outras pessoas lidam com isso, se há um jeito “normal”, ou “melhor” de encarar a situação. Acredito que muitos vêem no encontro casual um deleite para suas necessidades sociais. Não eu. Não aprendi a lidar. Surge em mim um momento muito peculiar de angustia quando, ao virar uma esquina, miro ao longe uma pessoa que conheço a vir em minha direção. Vem então à minha mente uma lista de possibilidades do que fazer, o que dizer e do que pode acontecer: toda ela desagradável. Baixo a cabeça enquanto caminho em direção à pessoa e penso na tenebrosa lista. Não consigo olhar para o sujeito, pois não tenho ideia do que fazer com meu rosto. Não tenho vontade alguma de sorrir, embora a falsa noção de sociabilidade nos imposta desde o útero nos diga que isso não é cordial. Para não sorrir, não olho, mas sei que o encontro é inevitável. E o medo de que a pessoa deseje alguma espécie de conversação? O cumprimento já é o limiar da situação. Conversar é inimaginável - mas acontece. E a pessoa pára. Na minha frente, estanca em meu caminho, e não há nada o que fazer (a noção de sociabilidade), e paro, e tenho de responder àquelas perguntas tudobem-familia-trabalho-cidade-essamerdatoda que não levam a nada e que, obviamente, nenhuma das partes tem real interesse.

Toda a cena se constrói na minha mente, e dou graças aos deuses quando há só um rápido cumprimento, e passamos rapidamente um pelo outro, como deve ser para manter o bom funcionamento do universo.  

16 maio 2013

Sol em touro e XIII arcano



Estou em um estágio de percepção de minha própria vida em que pensar e perceber as sincronicidades preparadas para nós, principalmente por nós mesmos, faz muito mais sentido do que conceber os acontecimentos como sendo meras coincidências, acasos frutos de um caos, de uma desorganização universal. O caos é um véu; desvelar é uma escolha.  

Hoje, no dia de meus 28 anos, firmo um compromisso comigo mesmo, esse de entregar-me cada vez mais à percepção do que realmente forma o meu eu, e de como galgar os degraus necessários para tudo o que eu realmente desejo.

O XIII arcano, tirado um dia antes do meu aniversário, como dito  antes, não é coincidência.